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13/01/2020
Por: VOLL

Por que é mais difícil chamar carro por app em certas áreas?

Adoção do conceito de zonas de risco pelas empresas levanta questões sobre acesso a serviços e segurança dos motoristas nas grandes cidades.

Este conteúdo foi produzido pelos autores como trabalho final do Lab 99+Nexo de Jornalismo Digital, com o tema “A cidade como pauta: desafios e soluções de mobilidade urbana”, realizado na redação do Nexo, em outubro de 2019.

 

A dificuldade de conseguir um carro via aplicativo pode variar de acordo com o local em que o usuário está. Isso está relacionado à dinâmica de oferta e demanda característica do serviço. Mas essa diferença também pode ser acentuada pelas chamadas zonas de risco.

As zonas de risco são determinadas pelas empresas de aplicativo, como Uber e 99, a partir de dados de violência nos bairros de grandes cidades. Em alguns casos, a informação é divulgada exclusivamente para os motoristas. Em outros, a mensagem também é visível para o próprio usuário, alertando que o carro sequer chega ali.

A prática, que surgiu no Brasil em 2017, começou a ser adotada pela Uber em cidades como São Paulo, Recife e Rio de Janeiro. De forma semelhante, a 99 desenvolveu o seu alerta de risco como iniciativa do Maio Amarelo, responsável por mobilizar todo o país com ações de conscientização sobre segurança no trânsito e redução de acidentes. Hoje a estratégia funciona em todas as cidades brasileiras em que as empresas atuam.

No Brasil, assim como na África do Sul, a Uber possui a prática de bloquear regiões consideradas perigosas. Embora a empresa, sob o argumento de proteção à segurança dos motoristas e clientes, não divulgue os bairros em que existem os bloqueios, usuários relatam a falta de acessibilidade do serviço, principalmente nas zonas periféricas.

Em Recife, por exemplo, é possível observar que o serviço não funciona de forma homogênea. Alguns bairros, como a Cohab, na zona sul da cidade, são bloqueados. Da mesma forma, moradores relatam que o bairro vizinho, o Ibura, é atendido apenas em algumas regiões popularmente conhecidas por serem mais seguras.

Para mudar essa realidade, a empresa, em conjunto com a Cufa (Central Única das Favelas), lançou o Uber Move, um projeto que conta com a implementação de pontos fixos de embarque em locais seguros e de fácil acesso. Contudo, até o momento, a ação aconteceu apenas no bairro de Heliópolis, em São Paulo.

O bloqueio não é a única prática adotada para lidar com as questões de insegurança. Diferente da Uber, a 99 usa o mapeamento de zonas de risco para enviar alertas aos motoristas que vão circular nessas regiões. Nesse caso, o motorista pode abrir mão ou não da solicitação, sem pagar taxas extras.

As zonas de risco

Do lado do passageiro

A adoção de zonas de risco expõe a desigualdade de acesso a serviços oferecidos nas grandes cidades, principalmente em zonas periféricas.

Do lado do motorista

A adoção das zonas de risco tenta dar segurança. Representantes da categoria reivindicam dados mais precisos sobre o destino da viagem.

Como funciona o sistema de restrição da Uber

De acordo com a Uber, algumas solicitações de viagens são bloqueadas em alguns dias e horários específicos quando a plataforma identifica risco ao motorista.

Esse processo é feito através da tecnologia do machine learning que, em todas as cidades onde a empresa atua, recolhe dados específicos da plataforma, tais como forma de pagamento e o CPF do usuário, e os combina com dados abertos de instituições públicas de segurança.

O usuário que tenta solicitar o serviço em uma área considerada perigosa terá seu local avaliado antes de visualizar a tela inicial. Com base nos dados, é feita uma análise do perfil da viagem e a partir disso a plataforma define se dará continuidade ou bloqueará o serviço temporariamente.

Em caso de bloqueio, o usuário fica sem acesso ao serviço até se deslocar para um local considerado seguro ou, em alguns casos, fornecer detalhes adicionais de identificação, o que é lido pela máquina como mais uma garantia de segurança.

Tanto na Uber quanto na 99 os funcionários podem cancelar corridas depois de aceitá-las, mas correm o risco de sofrerem punições após um grande número de cancelamentos.

 

Como funciona o sistema de restrição da 99

A 99 também adota o sistema machine learning em sua plataforma, em todas as regiões que atua, mas diferente da Uber, não causa o bloqueio de áreas de risco, apenas faz o alerta para o motorista quando ele aceita a corrida.

Pelos dados abertos das Secretarias de Segurança Pública e estatísticas internas do aplicativo, são mapeados os locais que podem apresentar perigo. Essas zonas não são fixas, pois a periculosidade das áreas da cidade pode variar de acordo com diversos fatores considerados pela empresa, tais como o horário da solicitação do serviço.

As informações das zonas de risco são repassadas apenas ao motorista, que escolhe aceitar ou não a viagem. De acordo com a empresa, os prestadores de serviço que moram nessas regiões específicas podem escolher atuar nesses locais.

Além disso, há iniciativas como taxas de preços 10% a 20% menores para zonas periféricas, chegando a 30% dependendo do Estado. Essas ações são responsáveis por descentralizar o serviço e têm como objetivo aumentar o fluxo de pessoas nas áreas mais estigmatizadas da cidade, incentivando a demanda de passageiros e a densidade de motoristas.

Antes da chamada ser efetuada pelo usuário, a 99, através do sistema de inteligência artificial, vasculha dados – como histórico de viagem, horários de chamada e formas de pagamento – para identificar padrões de comportamento suspeitos e efetuar medidas automáticas, que incluem bloqueios de usuários e solicitação de confirmação de dados.

Além disso, os motoristas podem escolher não receber pagamento em dinheiro, possuem reconhecimento facial para evitar que outras pessoas utilizem as suas contas, cursos presenciais sobre orientações de segurança, recebem informações sobre a nota do passageiro, a sua frequência e contam com câmeras de segurança via aplicativo em algumas regiões do país, como Goiânia, São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador e Manaus (projeto continua em expansão para outras cidades).

As duas principais empresas de aplicativos – Uber e 99 – consideram perigoso divulgar as áreas de risco definidas pelas plataformas.

Nem todas as empresas mostram, antes de uma corrida ser aceita, o destino específico do passageiro para o motorista. Essa omissão acontece, principalmente, para evitar discriminações e oferecer o serviço de forma mais bem distribuída pela cidade. Mesmo assim usuários relatam cancelamentos de viagens e constrangimentos após a aceitação das corridas.

Essa exclusão, de acordo com Edna Jatobá, especialista em política e gestão em segurança pública, não condiz com uma prática viável de segurança. Como ela explica, o termo zona de risco é algo informal na segurança pública, referindo-se à “divisões criadas para organizar a atuação do poder público, para definir, por exemplo, o contingente de policiais que aquela área precisa ou quais medidas serão tomadas para garantir a segurança daquelas regiões”.

A especialista integra a equipe do Fogo Cruzado, uma plataforma que monitora os casos de tiroteios em Recife e no Rio, mapeando a situação de cada bairro através de informações da imprensa, canais de autoridades policiais em conjunto com notificações de usuários via aplicativo e parceiros in loco (coletivos, comunicadores, moradores ativos localmente).

Como os dados abertos de segurança pública do Rio e de Recife não são estruturados por bairros, o Nexo utilizou os dados abertos do Fogo Cruzado, que divulgam o mapeamento por bairros, com o intuito de verificar se há relação entre a violência e a falta de acessibilidade ao transporte privado por aplicativo nessas cidades, que estão entre as primeiras a receberem a tecnologia de definição de zonas de risco.

Em Recife, por exemplo, a plataforma atuou contabilizando os dados de abril de 2018 à abril de 2019 e verificou que o bairro da Cohab, bairro vizinho ao Ibura, na zona Sul do Recife, registrou 33 casos de homicídio doloso, o maior número da cidade.

 

 

Matéria publicada originalmente pelo NEXO Jornal. Conteúdo na íntegra disponível aqui neste link.

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